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SEXTA 8 QUE PODERIA SER 13! 10 ESTRELAS PARA SEMPRE NO CORAÇÃO DA NAÇÃO

Garotos do Ninho (Foto: Reprodução)

“Tô indo. Amanhã tenho que ir no treino. Véspera de clássico, semifinal. Sempre é interessante”, assim falei com amigo que estava trocando uma ideia na quinta, por volta das 22hs, quando voltava de uma pauta de carnaval. Desde o início do ano, me divido entre a função de setorista do Flamengo e de produtor do projeto de carnaval, ambos pela Rede Mais Esportes. Chegando em casa, já adiantei todo o material – gravador, bloco, credencial etc – para sair cedo.

Acordei no dia 8 de fevereiro e fiz o que sempre faço. Fui à cozinha e fiz o café, com o rádio e a TV ligados (isso mesmo, os dois simultaneamente). No primeiro gole, vi a imagem. Sem acreditar no que via, apenas pensava “conheço esse lugar, conheço esse lugar”. Não escutava nada que vinha do noticiário e nem lia o que estava escrito na parte baixa da tela. Fiquei assim por uns 40 segundos, que mais pareceram uma eternidade. Estava em choque. Naquele momento, já sabia que minha pauta de um treino mudara para a maior tragédia de um clube em seus 123 anos. Seria o dia mais angustiante e doloroso da minha carreira profissional até o momento.

Coloquei a primeira camisa e calça que vi pela frente e olhei meu celular. Para vibrar, não vi as mais de 30 ligações recebidas. Resolvi sair de casa e ir para o Ninho. No meio do caminho, tudo engarrafado. Parecia ser impossível eu chegar em Vargem Grande, há 40 quilometros de casa. Meu whatsapp não parava. No meio do caminho, peguei o telefone e fui dar uma olhada. Não vou dizer que foi uma surpresa, mas foi diferente. Minha ex-esposa me dando força e desejando boa sorte, na medida do possível, para ter forças em lidar com o que vinha acontecendo. Outras mensagens que também me chamaram atenção, como de um amigo flamenguista, que não vejo um tempo por questões de morar fora do Rio, pedindo notícias. Assim como outras tantas. Entretanto, não respondi quase ninguem naquele momento, o foco era chegar no CT e iniciar o trabalho. No fundo, ao longo da sexta, só falei no aplicativo mesmo com o grupo da rádio, com meu coordenador e algumas fontes. Ao chegar ao local, a loucura de perto. Sim, tinha ocorrido aquilo que vi na imagem da TV da minha casa.

Não foi fácil. Amigos da imprensa, do nosso dia-a-dia, sem saber o que falar. Uns abraços daqui, uma lágrima dali e recuperar as forças para ir atrás das informações, já que teria que entrar no ar e transmitir tudo o que a gente não pensa em passar. Entrevista com o vice-governador, com tenente-coronel dos Bombeiros e nada de Flamengo. Carros da Defesa Civil deixando o local e nada. Landim, presidente do clube, fez um pronunciamento curto. Não abriu para a imprensa. As dúvidas começaram a pairar. Nesse primeiro momento, deu raiva. Todos ali aguardavam explicações. Mais do que a gente da imprensa, os torcedores, os familiares. Alguns torcedores símbolos do Fla começaram a chegar no CT trazendo flores e fazendo homenagens. Começamos nossa transmissão, todos da equipe na rua. Entrei no ar com a voz embargada. Consegui segurar o choro no ar. Até que…..

“Oi, boa tarde”, se referiu uma menina, aparentando uns 18 anos no máximo. “Você é da imprensa ou do Flamengo?”, me questionou. Disse que era da imprensa, nesse momento não estava tão perto da entrada do CT. “Você poderia me dizer se o “X” consta na lista dos mortos?”. Gelei. Não falaria em hipótese alguma. Disse apenas que a lista com os possíveis nomes era preliminar ou mesmo uma hipótese e que não tinha nada confirmado. Ela insistiu. Levei-a até a entrada do CT. Infelizmente, o nome estava. Constava na lista que tínhamos, mesmo que não oficial (me dei o direito de não falar em nomes). Desabei. Mas tinha que voltar para o trabalho. Respirei e voltei. Não falei disso no ar, não era informação e não ia mudar em nada para o meu ouvinte. Meu coordenador pediu para sair do CT e ir para o IML. Saí de Vargem Grande para Leopoldina. Uns 50 minutos de carro. Nesse caminho, desabei de novo. Corri e fui desabafar no meu Instagram. Comecei meu texto com “Koé, imprensa. Um dia vocês vão entrevistar a gente” – é o jeito como alguns garotos falam ao passar para treinar enquanto aguardamoss para cobrir o treino dos profissionais.

No IML, uma multidão de jornalistas. Um clima pra lá de pesado. Aguardando os familiares. Não apareceram no mesmo dia. Ficaram no hotel, aguardando um chamado. Mesmo assim, seguimos lá, escutando as pessoas, conversando com amigos e colegas da imprensa e tentando entender o ocorrido. A cara de cada um de assustado com toda a situação chamava a atenção. O dia não parecia ter fim. Já tinha acabado essa sexta e ninguém tinha avisado. Mas não. Escutei algumas coisas de pessoas que trabalham no local. Também não relatei no ar. Guardei pra mim, não acrescentaria em nada, na minha visão. Voltei eram 22 horas. Segui sem entender como aquilo poderia ter acontecido. Revoltado que o Flamengo não falava. Em casa, após o banho, tentando descansar no sofá, consegui entender o lado do rubro-negro. Sim, as famílias precisavam mais nesse primeiro momento, mas eu atrás de informações oficiais, naquele momento, não via assim.

Chegou o sábado e o trabalho continuou. Mais uma vez, os dirigentes do Fla só fizeram um pronunciamento. Só que, para diminuir essa falta de informação, a torcida do clube se reuniu numa praça próxima à Gavea. Várias organizadas resolveram fazer uma homenagem. Ali a ficha caiu de vez de tudo que tava acontecendo. Antes de saírem para uma volta ao redor do estádio, eles se reuniram e fizeram uma oração. Meu Deus. Chorei copiosamente. Minha estrutura tinha ido embora ali. Não sabia mais o que fazer. Segui o meu trabalho e vim embora. No caminho, chorei ainda mais.

Já se passaram alguns dias e o Flamengo ainda não falou. Ele precisa falar. Eu sigo meu trabalho aguardando todas as provas. Não vou apontar para esse ou aquele nesse momento, mas o clube deve dar uma satisfação. Em todos esses dias, trabalho e fico pensando na família desse meninos. Eu, apesar de vivenciar, de chorar e de estar triste, não sinto 10% da dor dos familiares. Da mãe, do pai, do avô, da avó etc. Triste demais ver tudo o que aconteceu. Triste em saber que essas famílias viram o sonho deles e dos seus filhos terminarem. Triste em saber que eles só queriam jogar bola e dar o melhor para um pai e uma mãe. Homenagens não vão parar. Os nomes desses meninos jamais serão esquecidos, ao menos, por mim. Até porque, eu gravei da pior maneira possível. Mas terei uma pequena chance, se Deus me permitir. Três feridos vão voltar ao futebol: Cauan Emanuel, Francisco Dyogo e Jhonata Cruz. Esses foram hospitalizados – os dois primeiros, estão bem. Jhonata foi o que mais se feriu, mas vai sair já já. Ele teve ferimentos mais graves porque voltou ao dormitório para tentar salvar o amigo. Sem falar do Benedito Ferreira, segurança do clube, que ajudou no resgate dos sobreviventes. Um herói.

Eu só desejo força aos familiares. Só desejo respostas e que elas aplaquem um pouco o sofrimento deles. Só desejo muita luz para esses meninos. BERNARDO, CRISTIAN, GEDINHO , PABLO HENRIQUE, RYQUELMO, SAMUEL, VITOR ISAIAS, JORGE EDUARDO, ARTHUR E ATHILA, nunca serão só promessas do Ninho. Vocês sempre terão seus nomes na história do clube. Todos vão lembrar de vocês como os “Garotos do Ninho”.

O dia 8 de fevereiro foi o dia mais difícil da minha profissão, até hoje.

MÚSICA FEITA PELA TORCIDA EM HOMENAGEM AOS GAROTOS DO NINHO:

“Ah, como eu queria ver vocês aqui
Honrando o manto do Mengão, com raça e paixão
Mas, essa Nação jamais vai esquecer
O Flamengo vai jogar, pra sempre por vocês!

Ôôô, olê olê olê olê olê
São 10 estrelas a brilhar
No céu do meu Mengão!

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